Dizia Jean Paul Sartre, que o «Homem Faz-se a si mesmo».
Esta afirmação deu azo a polémicas várias. Para uns, a proposição
significava o puro materialismo, retirando do homem a sua componente divina;
para aqueles que desta forma pensavam, «o homem é feito à imagem e
semelhança de Deus», e estariam, assim, a laborar no puro essencialismo,
pensariam outros. Não foi Sartre quem provocou todo este alarido. O que o
filósofo quis dizer é que o homem concreto não pode esperar que lhe indiquem
o caminho. Tem que ser ele a procurá-lo e a percorrê-lo. Todos os que ficam
à espera que lhes mostrem o caminho são figuras apagadas, mas que querem
fazer querer que até têm ideias, projectos, escolha de caminhos. Nada mais
falso, porque são falsos caminhantes, ou melhor, são caminhantes sem
caminho, porque o caminho que pretendem percorrer não é o seu, mas de quem
lho indicou, alguém mais astuto, mais calculista, que convence o outro a
pensar que vai fazer um grande figurão!
Estes caminhantes sem caminho são figuras instáveis.
Hoje, e dada a sua submissão, mostram determinado carácter e personalidade,
amanhã mostram outra face, qual feijão frade!, mais de acordo com a ocasião,
mais de acordo com interesses obscuros, que não os seus. É uma pena que
assim seja, porque todo o ser humano tem o direito e o dever de exigir de si
próprio, enquanto ser interventivo na sociedade, que desbrave o seu próprio
caminho. Com efeito, como escreveu Karl Jaspers, «o homem é um ser a
caminho», como tal, chegada a idade da responsabilidade tem a obrigação
ética e moral de se libertar de caminhos alheios, afirmando-se de pleno
direito, perante si próprio e a sociedade em que se insere. Se assim o não
fizer, não passará de um títere. Alguém que apenas percorre trilhos que
outros fizeram; dirá o que outros disseram; fará o que outros fizeram;
repetirá. Mas tudo isto sem inovação, sem rasgo nem criatividade.
Todos nós aprendemos com as experiências anteriores. E
estaremos sempre a aprender, enquanto as nossas faculdades intelectuais o
permitirem. Mas aprender com as experiências dos outros não significa
repetir, ipsis verbis, o comportamento e atitudes alheios. Isso é
puro mimetismo.
A inovação, a criatividade e a afirmação de cada um é que
faz de cada um aquilo que cada um é, é que faz a diferença. Nós somos o que
fazemos e não aquilo que pensamos que somos. Nem tudo o que parece é. As
aparências iludem apenas os incautos, mas quando estes descobrem que foram
enganados não mais perdoarão que os ludibriou.
O ser caminhante, aquele que não desdenha das
experiências anteriores, mas que inova, cria e se afirma enquanto pessoa,
tem um só carácter, como Camões, «de antes quebrar que torcer», uma só
personalidade, escolhe, sem reservas mentais, um caminho e segue-o. Não
podemos dizer do mesmo objecto que é circular e quadrado ao mesmo tempo. Tal
afirmação rompe com as regras da lógica e do bom senso. Não se pode afirmar
e negar a mesma coisa ao mesmo tempo.
O homem pode e deve aperfeiçoar o seu percurso. As coisas
da vida não são tão definitivas, simplesmente porque estão em projecto. Não
é o ser humano um projecto, que se vai realizando no decurso da sua
caminhada?
Para que nos tomem por sérios, com carácter e dignos não
podemos ser hoje uma coisa e amanhã outra. Em todas as circunstâncias, a
ética da responsabilidade exige que sejamos iguais a nós próprios. Senão,
não passaremos de uns «faz de conta», mas que nada conta senão para o
próprio, que faz de conta!
É difícil ser-se coerente? É. No entanto, é a coerência
da experiência, do fazer e do dizer próprios, do estar e do ser próprios que
faz de nós o que efectivamente somos. Que cada um escolha um caminho e o
percorra: Um caminho já pronto, ou um caminho a fazer. Eu aconselharia a que
optasse pela segunda via. Tem mais sabor, de saber. (António Pinela, Reflexões,