Sócrates, Platão e Aristóteles e a fundamentação da Filosofia

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Quem tem medo da Filosofia (2)

 

Porque a Sr.ª Ministra da Educação pretende acabar com os exames de Filosofia, no 11.º ano, já no próximo ano lectivo e, com esta atitude, fará com que os alunos se desinteressem por esta disciplina, dado que não têm que fazer o exame, é adequado colocar as seguintes questões: 1. a) Não é verdade que, não havendo exames, não haverá tanto empenho por parte dos alunos pela aprendizagem das temáticas filosóficas, passando a Filosofia a disciplina residual? b) Os jovens não devem ocupar-se, com interesse, pelas “coisas” mais profundas da existência humana? c) Os alunos não têm o direito a exercitar o pensamento discursivo? d) Pretende-se criar mentes fechadas e não seres pensantes? e) Passaremos, assim, a ser apenas seres executantes? f) Deveremos, então, preocupar-nos somente com os planos tecnológicos e com a tecnocracia? g) Não é importante, para a formação crítica do aluno, ser capaz de descodificar as mensagens ardilosas que, todos os dias, assolam as mentes das nossas crianças e jovens, através da Televisão, da Internet, e de outros meios de comunicação? h) Os professores de Filosofia deverão passar, agora, a leccionar temáticas relacionadas com o luxo e a usura, as vaidades, vanidades e banalidades “VIPianas” veiculadas pelas revistas ditas cor-de-rosa e de telenovelas? i) Isto é, deverá a Filosofia, a partir deste momento, alinhar no apelo ao consumismo desenfreado, a que conduz a não reflexão sobre as coisas?

2. Noutra dimensão, não é importante analisar, reflectir e tomar posição, de modo apaixonado, esclarecido e interessado, sobre: a) A crise dos valores tradicionais? b) As crises religiosas? c) O aproveitamento da ignorância religiosa? d) Os fundamentalismos? e) O descrédito das ideologias e das políticas? f) As constantes mutações sociais? g) As ameaças generalizadas (e consumação terrorista) à integridade de pessoas e bens? h) Os novos problemas causados pelo fenómeno da globalização? i) Os novos fenómenos laborais? j) As leis – que são convenções elaboradas por alguns homens – serão para ser cumpridas por todos ou só quem não as fez deverão cumpri-las, ficando isentos do seu cumprimento o legislador e os poderosos? k) As regras do dever serão uma ilusão ou realidade, invenção dos homens ou expressão da vontade divina?

3. Finalmente, questionemos, ainda: a) Pretende-se, com esta “política educativa e cultural”, que ignoremos as raízes da nossa cultura, para que nos tornemos seres emergentes e acéfalos? b) Ou será que ensino da Filosofia é inquietante e inoportuno porque desenvolve o pensamento hipotético, a reflexão, o sentido crítico, a liberdade de opção, no verdadeiro sentido da palavra, espicaça as mentes adormecidas e, com esta prática, poder-se-á pôr em risco interesses instalados? Diz filósofo português Álvaro Ribeiro que «O pensamento humano só assume claridade pela reflexão filo­sófica.» Quem não entende isto?

A Filosofia, de facto, não ensina como pregar um prego numa tábua, como fazer um plano contabilístico, como descobrir a cura para a doença que atormenta um nosso familiar ou amigo, não respondendo às nossas angústias, consequências da vida. Mas «A Filosofia, se não pode responder a tantos enigmas como desejáramos que respondesse, tem o poder, pelo menos, de fazer perguntas e de levantar problemas, que tornam o mundo muito mais interessante e que mostram o estranho, o maravilhoso, logo por baixo da flor da pele das vulgaríssimas coisas do comum.» (Bertrand Russell).

Sabemos que existem pessoas que não gostam nem acreditam na Filosofia. Estão no seu pleno direito, mas tais, quando ocasionalmente têm o poder efémero (o poder é sempre efémero) de legislar sobre o assunto, pensem reflexivamente antes de aplicar o golpe fatal sobre qualquer disciplina, porque não têm o direito de privar, no caso em análise, os outros da vivência sentida da Filosofia! Porque se há quem não credite, «Eu acredito na Filosofia, tenho a certeza de que de hoje em diante não há futuro senão nela. Ouçam, em tudo o resto, a morna repetição…» (Michel Serres, Diário de Lisboa, 22.5.1981).

É preciso ter coragem para resistir aos ataques que a Filosofia tem sido alvo, particularmente, nas últimas duas décadas. Com efeito, «A coragem filosófica é a coragem da razão, porque a intenção filosófica, no fim de contas, não é mais do que a intenção racional do homem. A filosofia é a razão humana intencional, conduzindo corajosamente a sua acção e a sua obra até ao fim das suas capacidades.» (J. Vialatoux).

Para alguns espíritos tidos com práticos e mesmo cultos, pelo menos a seus olhos, a Filosofia não passa de assunto sem assunto para que lhe possam consagrar algum do seu tempo precioso. No entanto, ficam boquiabertos, muito espantados e até irritadiços, quando as suas certezas, ideias e evidências, que nunca lhe despertam dúvidas, são postas em causa quando são objecto de exame filosófico sério e sujeitas ao contraditório. Para os filósofos, os homens que se dedicam constantemente à procura da verdade, todas as certezas são transitórias. Como a experiência tem demonstrado, não há praticamente ideias, conceitos ou evidências que não estejam sujeitas ao escrutínio. Todos os problemas aparentemente resolvidos, como questões políticas, económicas, sociais ou epistemológicas são permanentemente objecto de reanálise

Não basta que o homem explique e classifique todos os factos e seres que conhece. Se só isto fizesse, o homem sentir-se-ia perdido, fragmentado. O homem sente necessidade de ligar, entre si, todos aqueles conhecimentos e seres que conhece, tem necessidade de organizar um saber mais englobante e este só pode acontecer se procurar as suas causas e princípios: estas são tarefas da Filosofia. Haverá tarefa mais apaixonante, para o homem, do que a abordagem, análise, reflexão e compreensão destes problemas? Nada há mais importante na vida das pessoas do que tratar de assuntos que mais directamente as implicam, como a sua vida e o que as espera. As ocorrências que mais afectam a humanidade são a pobreza, a indigência, a doença, a guerra e a morte. Mas a infelicidade maior, se o homem é dado à reflexão, advém-lhe do facto de ignorar para que nasce, sofre e morre! É preciso ganhar os alunos, os jovens, todos, para a prática da autonomia do pensamento. Esta prática exige motivação, trabalho organizado, sem facilidades. (António Pinela, Reflexões, Novembro de 2006).

 
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