É comum confundir-se
instrução com educação e mesmo com cultura. Nada mais
errado. Coloquemos as competências, atitudes e sabedoria nos seus
devidos lugares. Não queremos, com isto dizer, a priori, que as
três faculdades não possam coexistir na mesma pessoa. Felizmente que
coexistem! Mas, não raro, damo-nos conta de que, infelizmente, aquelas
três dimensões da praxis humana não habitam onde deveriam. Vêm
estas reflexões a propósito de quê? Duas notas por ordem temporal.
Primeira: Há já algum
tempo, assisti, maravilhado, a um evento impar e inesquecível, da nossa
região. Antes porém, tive que esperar cerca de vinte minutos, por
imposições protocolares, creio! Após este tempo de espera, remeteram-me
para umas cadeiras disponíveis que se vislumbravam do local onde eu me
encontrava: «os senhores vão para além...», disse enfatuada uma senhora
fardada, que se me dirigiu e a dois colegas de função, depois de a ter
lembrado o tempo que esperáramos para que nos arrumassem em algum sítio.
Lá fomos nós para as tais cadeiras disponíveis. Conversava entusiasmado,
quando dois participantes no evento se aproximaram de nós. Um dos meus
colegas, solícito, ofereceu o seu lugar, numa fila da frente, ao senhor
engenheiro. «Sente-se aqui senhor engenheiro!». O senhor engenheiro não
queria sentar-se ali. Naturalmente não via motivos para tal! E depois,
por que razão haveria o meu colega de ceder-lhe o lugar? Terá pensado o
senhor engenheiro! No entanto, devido à insistência, acabou por aceitar
o lugar, e o meu colega passou para uma das filas traseiras... Quem
acompanhava o senhor engenheiro olhara para mim, altivamente, por cima
de si mesma, e ordenara: «Passa lá para trás também... Eu tenho que
ficar aqui à frente, depois logo te explico porquê!». Era uma senhora
que assim me ordenara que mudasse de lugar. E eu, tendo em conta a
«humildade» do cargo que ali representava, passei lá para trás, cedendo
o meu lugar à dita senhora. Mas, em boa verdade vos digo, fi-lo por
considerar exactamente o cargo que ali representava, o acto a que
assistia, e a minha qualidade de ser humano racional. Entretanto,
esperei pela explicação no final da cerimónia e nas semanas e meses que,
entretanto, passaram. Mas a explicação não foi dada, porque não podia
ser dada. Não existe explicação para estes actos. É uma pena que
pessoas, com um grau razoável de instrução, não procurem os restantes
elementos da sua formação! A educação e a cultura. A explicação, que me
fora prometida, e não cumprida, levou-me a reflectir com a caneta sobre
papel.
Segunda: Nem toda a
gente teve a oportunidade de frequentar a escola. É bom lembrar que,
nesta região, a maioria das pessoas, com mais de quarenta anos apenas
frequentou (as que frequentaram!) a escola primária. E que muitas não
sabem ler nem escrever. No entanto, isto não quer dizer que não sejam
educadas e mesmo cultas. Vem esta nota a propósito do trato que algumas
pessoas recebem, quando se dirigem aos serviços públicos de atendimento.
Dizia-me há dias uma ilustre funcionária da Autarquia, com formação e
responsabilidade superiores, que algumas pessoas da minha terra não
sabem o que querem, são agressivas, mal-educadas, e refilonas. Que dizem
uma coisa num dia, e outra noutro dia. Que não conhecem regras nem
hierarquias... Cara funcionária, as tais pessoas a que se refere sabem
bem o que querem: querem que as tratem como tratam todos os outros
cidadãos, e que as não enxovalhem e ostracizem como tem acontecido há
décadas; querem que as compreendam e as ajudem a esclarecer e a resolver
o que não sabem. É para isso que se põem lugares a concurso público,
para que sejam preenchidos por pessoas com instrução, educação e
cultura, para que possam compreender e ajudar os outros. Quem não tem
conhecimento e vocação para atender pessoas, concorra a outros lugares,
que não exijam o contacto com o público. Não é só o sacerdócio que exige
vocação. Ser médico, professor, advogado, funcionário público exige
vocação. Quem não a tem, desista. Ou proceda a uma reciclagem, ou mude
de actividade, ou simplesmente vá para casa! (António Pinela,
Reflexões, Setembro de 2002).