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1. Segundo a tradição, a escola é o lugar
onde é transmitido um ensino colectivo, geral ou especializado; a actividade
escolar é dominada pela preocupação de seleccionar mais do que formar
crianças e jovens. Partindo desta ideia, o professor, possuidor de um
saber acabado, inquestionável, transmite este dogmaticamente, a
partir da convicção de que aprender é apenas assimilar e memorizar ideias ou
conceitos. De acordo com esta concepção, o que se exigia, neste tipo de
escola, era que os alunos tivessem uma boa capacidade de recepção e
de memorização dos saberes transmitidos, sob pena de não verem os
seus esforços coroados de êxito. Esta é a escola em que, muitos de nós,
fizemos a nossa própria aprendizagem.
Infelizmente, temos de reconhecer que, ainda
hoje, existem professores [e não poucos], nos diversos níveis de ensino
[Básico, Secundário e Universitário – alguns acabados de chegar ao
Sistema!], que pensam que o «ensino» é assim, e assim «ensinam», sem, pelo
menos, se questionarem sobre a eficácia da sua prática lectiva, quando no
final de um período escolar ou ano lectivo os resultados do seu «ensino» são
francamente negativos, sabendo apenas dizer «que os alunos têm uma
deficiente preparação de base», remetendo as suas responsabilidades para os
outros, acrescentando «que eles não sabem ler nem escrever, que não estudam
nem sabem pensar...», alijando, desta forma, a sua responsabilidade, e com
isso se satisfazem!
2. A escola do tempo hodierno não deve
ser aquela. Terá que ser outra muito diferente. A escola que faz sentido é a
que está orientada para a mudança, aberta e antidogmática,
transformando-se num espaço onde dê gosto estar, aprender e
ensinar. É a escola onde os alunos encontrarão bem-estar e
informação versus formação.
Os resquícios ainda existentes da escola do
passado terão que transformar-se na Escola Cultural, como diz o
Professor Manuel Patrício, ou, como diremos nós, na Escola do Futuro,
na qual a experiência e o saber se entrecruzam, possibilitando múltiplas
interacções e aprendizagens. É esta a escola por que anseiam as nossas
crianças, adolescentes e jovens. É esta a escola que todos nós, Ministério
da Educação, professores, alunos, pais e encarregados de educação temos de
motivar.
3. Quer se queira ou não, esta escola em
transformação [que muitos denominam de «escola nova»], aberta ao futuro,
está essencialmente nas mãos dos professores criá-la e conduzi-la, na medida
em que são eles os agentes primeiros do desenvolvimento do processo
curricular, e porque trazem consigo a sua experiência, vivência e
saber para a escola e para a sala de aula, capital acumulado de que
os alunos poderão ser os beneficiários, desde que estes também tenham a
liberdade de adoptar, pôr em dúvida, questionar aquele saber feito de
tempo. É desta forma, a nosso ver, que começa a escola do futuro.
Também o aluno, sujeito da aprendizagem, traz
consigo as marcas do seu meio envolvente, o seu saber, as suas
vivências e experiências de vida que, se todos em aula [ou no
exterior], docentes e discentes, forem capazes de clarificar, tornarão a
sala de aula num espaço vivo e actuante, espaço de trabalho e de
realização do processo de ensino-aprendizagem. E então, a escola
motivar-se-á, actualizar-se-á e abrir-se-á ao futuro. Com efeito, é esta
escola emergente dos ideais da Democracia que será capaz de
produzir conhecimentos, criar cultura, desenvolver capacidades intelectuais
e técnicas, promover a compreensão, a tolerância, a aceitação da diferença,
o aprofundamento de valores.
4. É esta dialéctica permanente que
proporcionará a produção de saberes e a sua aprendizagem pelos
alunos. Deste modo, a relação pedagógica alterar-se-á profundamente, uma vez
que passa a ser fundamentada em princípios de ordem ética e nos
valores residuais que enformam as personalidades de cada aluno e dos
professores. Só desta forma o trabalho do docente é valorizado e este passa,
de facto, a ser encarado como professor, mas também como educador, como
conselheiro e como amigo. A população escolar, de acordo com esta concepção
de ensino-aprendizagem, passa a adquirir respeito e confiança pela
sua escola ao ver nela um local onde ocorrem múltiplas vivências, o encontro
de pessoas, troca de experiências e aquisição de saberes em construção.
5. Resultará desta filosofia
educativa, que a sala de aula – espaço de implementação e
desenvolvimento de saberes – deixará de ser as quatro paredes desnudas e
passará a ser um espaço acolhedor, protector e aberto.
Contudo, chegado o tempo, a nova escola fará o
aluno sentir a necessidade de a abandonar, «forçando-o» a entrar num
outro mundo, outro espaço, em busca de mais informação e
saber, que a escola já não pode dar, que se traduzirá numa experiência de
vida necessária e complementar, ainda não conhecida do aluno, mas que lá
fora pulula agressivamente e que, aliada à sua experiência escolar, o
preparará para a realidade que o espreita, passada a idade de alguma
irresponsabilidade, rebeldia e de muitos sonhos: o mundo austero da
vida, do trabalho, da concorrência e, não raro, do desencanto. (António
Pinela, Organização e Desenvolvimento Curricular, Barreiro, 1999, pp.
10-11). |