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Vivemos, nos últimos anos do século XX e início deste, num mundo
nebuloso, cheio de escolhos, que se reflecte nos rostos das pessoas.
Estas, mesmo que procurem exteriorizar alguma alegria, observa-se, a
todo o momento, a inexorável sombra da dúvida.
Na grande maioria dos casos, o principal motivo para tal abatimento é a
marca da incerteza, devido à insegurança económica que paira sobre
aqueles que trabalham, sobretudo, por contra de outrem. É raro encontrar
alguém que não tenha um parente ou amigo desempregado. Quase todos
conhecemos alguém que está sem trabalho, sendo novo para se reformar, e
velho para concorrer no cego mercado do mesmo. Que vale a
experiência adquirida no decurso de vinte, trinta anos de actividade?
Para a maioria dos empresários, muito pouco. Nada mesmo.
Emergem, então, os desencantos de muitos anos de actividade, que agora
nada valem; e a frustração espreita perante a incapacidade de alterar a
situação; a angústia instala-se por temor à indigência; o desespero faz
o seu caminho, conduzindo a actos impensados e a situações-limite.
Instala-se a desestruturação psicológica do indivíduo.
Para a maioria dos seres humanos, a importância que o trabalho exerce na
vida é primordial. Aliás, o trabalho é o motor central da
realização humana.
Mas, que pensar do futuro, conhecendo as condições em que vivem hoje a
maioria dos trabalhadores? É irrealista dizer que nas actuais condições
em que o mundo se encontra, a desigualdade entre os homens tende a
aumentar cada vez mais? Onde estão os incentivos para que os
trabalhadores não se sintam marginalizados da produtividade criada? Onde
está a chamada classe média que, segundo a tradição, costumava ser o
esteio dos países desenvolvidos? Tudo isto é o resultado da
globalização, dizem por aí alguns fazedores de opinião. Mas será?
É verdade que os pretensos donos da globalização – as grandes
multinacionais e os donos do capital sem rosto – vêm impingindo um modo
de vida globalizada, isto é, consumista e superficial,
procurando encher os nossos olhos pela propaganda veiculada pela
televisão, rádio, jornais, revistas e outros meios de comunicação. Quase
toda a propaganda diviniza os valores dos bens materiais, dos carros, já
não tanto do tabaco, da bebida, das férias além-mar, do falso ter.
Consequência de tudo isto? As pessoas hoje passam a ser avaliadas pelo
que parecem e não pelo que são, o que traz o sofrimento e inflama a dor.
Tudo isto convém aos poderosos. Aqueles que nos criam o hábito das
necessidades. As necessidades dos carros (que temos de mudar de 4
em 4 anos, senão ficamos fora de moda!), dos telemóveis (se
possível de última geração, e os mais caros!), dos computadores
(que temos de mudar de 6 em 6 meses, senão ficamos desactualizados,
porque os programas já não correm!), das viagens (porque, quem
não vai ao Brasil ou à Ilha de F. Castro é pessoa de pouca cultura!).
Conclusão, com tudo isto, o homem de hoje perde a sua liberdade, o seu
poder de decisão, é alienado, torna-se coisificado. Desespera-se.
O homem deixou-se arrebatar pelos encantos das novas tecnologias, pelas
drogas, pela corrupção, pela vida fácil… Deixou de pensar. O pensamento
e a reflexão são luxos do passado? Mas, o que é que é preciso que
aconteça para que o homem volte a pensar? Os problemas da vida deste
tempo não são suficientes para fazer uso do pensamento? Que urge fazer?
Desenvolver a educação e a cultura de todos nós. Coisa que os
pretensos donos do mundo não querem!
Para fazer o homem voltar a pensar, é preciso espicaçar as mentes
adormecidas, como fazia Sócrates pelas ruas de Atenas, na Grécia Antiga.
É primordial desenvolver permanentemente a educação e consciencialização
de alguns princípios filosóficos básicos, como: O homem é um ser que se
esquece excessivamente, e o que é mais grave, que neste mundo do
esplendor das grandes superfícies comerciais, do luxo e da usura, em que
vivemos, ele esquece-se do mais importante da sua missão, enquanto ser a
caminho, esquece-se de ser.
Urge que o homem valorize o ser, não as aparências.
Ora, quando o homem filosofa ele vive verdadeiramente, porque reflecte
sobre tudo o que o envolve e toma decisões conscientes. É mais humano.
Na medida em que deixa a Filosofia de lado, desumaniza-se. Torna-se
insensível. Esquece-se de si e dos outros. E sem os Outros nada somos.
( António Pinela, Reflexões, Abril de 2007). |