Sócrates, Platão e Aristóteles e a fundamentação da Filosofia

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A exoneração da vida

 

Vivemos, nos últimos anos do século XX e início deste, num mundo nebuloso, cheio de escolhos, que se reflecte nos rostos das pessoas. Estas, mesmo que procurem exteriorizar alguma alegria, observa-se, a todo o momento, a inexorável sombra da dúvida.

 

Na grande maioria dos casos, o principal motivo para tal abatimento é a marca da incerteza, devido à insegurança económica que paira sobre aqueles que trabalham, sobretudo, por contra de outrem. É raro encontrar alguém que não tenha um parente ou amigo desempregado. Quase todos conhecemos alguém que está sem trabalho, sendo novo para se reformar, e velho para concorrer no cego mercado do mesmo. Que vale a experiência adquirida no decurso de vinte, trinta anos de actividade? Para a maioria dos empresários, muito pouco. Nada mesmo.

 

Emergem, então, os desencantos de muitos anos de actividade, que agora nada valem; e a frustração espreita perante a incapacidade de alterar a situação; a angústia instala-se por temor à indigência; o desespero faz o seu caminho, conduzindo a actos impensados e a situações-limite. Instala-se a desestruturação psicológica do indivíduo.

 

Para a maioria dos seres humanos, a importância que o trabalho exerce na vida é primordial. Aliás, o trabalho é o motor central da realização humana.

 

Mas, que pensar do futuro, conhecendo as condições em que vivem hoje a maioria dos trabalhadores? É irrealista dizer que nas actuais condições em que o mundo se encontra, a desigualdade entre os homens tende a aumentar cada vez mais? Onde estão os incentivos para que os trabalhadores não se sintam marginalizados da produtividade criada? Onde está a chamada classe média que, segundo a tradição, costumava ser o esteio dos países desenvolvidos? Tudo isto é o resultado da globalização, dizem por aí alguns fazedores de opinião. Mas será?

 

É verdade que os pretensos donos da globalização – as grandes multinacionais e os donos do capital sem rosto – vêm impingindo um modo de vida globalizada, isto é, consumista e superficial, procurando encher os nossos olhos pela propaganda veiculada pela televisão, rádio, jornais, revistas e outros meios de comunicação. Quase toda a propaganda diviniza os valores dos bens materiais, dos carros, já não tanto do tabaco, da bebida, das férias além-mar, do falso ter. Consequência de tudo isto? As pessoas hoje passam a ser avaliadas pelo que parecem e não pelo que são, o que traz o sofrimento e inflama a dor.

 

Tudo isto convém aos poderosos. Aqueles que nos criam o hábito das necessidades. As necessidades dos carros (que temos de mudar de 4 em 4 anos, senão ficamos fora de moda!), dos telemóveis (se possível de última geração, e os mais caros!), dos computadores (que temos de mudar de 6 em 6 meses, senão ficamos desactualizados, porque os programas já não correm!), das viagens (porque, quem não vai ao Brasil ou à Ilha de F. Castro é pessoa de pouca cultura!). Conclusão, com tudo isto, o homem de hoje perde a sua liberdade, o seu poder de decisão, é alienado, torna-se coisificado. Desespera-se.

           

O homem deixou-se arrebatar pelos encantos das novas tecnologias, pelas drogas, pela corrupção, pela vida fácil… Deixou de pensar. O pensamento e a reflexão são luxos do passado? Mas, o que é que é preciso que aconteça para que o homem volte a pensar? Os problemas da vida deste tempo não são suficientes para fazer uso do pensamento? Que urge fazer? Desenvolver a educação e a cultura de todos nós. Coisa que os pretensos donos do mundo não querem!

 

Para fazer o homem voltar a pensar, é preciso espicaçar as mentes adormecidas, como fazia Sócrates pelas ruas de Atenas, na Grécia Antiga. É primordial desenvolver permanentemente a educação e consciencialização de alguns princípios filosóficos básicos, como: O homem é um ser que se esquece excessivamente, e o que é mais grave, que neste mundo do esplendor das grandes superfícies comerciais, do luxo e da usura, em que vivemos, ele esquece-se do mais importante da sua missão, enquanto ser a caminho, esquece-se de ser. Urge que o homem valorize o ser, não as aparências.

 

Ora, quando o homem filosofa ele vive verdadeiramente, porque reflecte sobre tudo o que o envolve e toma decisões conscientes. É mais humano. Na medida em que deixa a Filosofia de lado, desumaniza-se. Torna-se insensível. Esquece-se de si e dos outros. E sem os Outros nada somos. ( António Pinela, Reflexões, Abril de 2007).

 

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