1. Venho de um tempo em que o trabalho era
valorizado. Ser um bom trabalhador era motivo de orgulho. Até nas relações
amorosas este atributo se fazia sentir: «Ele é bom rapaz e muito bom
trabalhador», ou então, «é bom rapazinho, mas não gosta de vergar a mola»,
ouvia-se, com frequência, aos familiares das jovens que começavam a
namoriscar.
Os rapazes sabiam que se lhes dava grande apreço pelo
facto de se empenharem nas tarefas em que se envolviam. No trabalho
agrícola, os bons trabalhadores ostentavam grandes enxadas. Quem levasse,
para o trabalho, uma pequena ferramenta era logo apodado de mandrião e teria
dificuldades em colher as simpatias dos pais das jovens. Nos trabalhos do
campo, os melhores eram disputados pelos lavradores, e ganhavam mais que os
outros, porquanto todos queriam os seus serviços.
O trabalho era, então, personalizado, tinha a marca de
quem o executava. O trabalhador olhava para a sua obra e dizia, orgulhoso:
«Fui eu que fiz». Via crescer o esforço do seu trabalho: a sementeira que
desabrochava e dava frutos. «Tens um belo batatal»!, «Que viçosas estão as
couves»! «Que sementes usaste?
Na marcenaria nascia, de mestras mãos, o móvel que
alindaria o quarto de um jovem casal. Este móvel fora feito pelo mestre
João. Na oficina de sapateiro, o senhor Joaquim desenhava, directamente do
pé do cliente, as botas de atanado, para uso no Inverno, que lhe ficavam que
nem uma luva. No escritório, um jovem, que estudara numa Escola Comercial e
Industrial, desenhava, com diversos tipos de letra, os mapas contabilísticos
onde registaria, com mestria e elegância, o Deve e o Haver que informava as
contas de uma empresa. Tudo tinha que estar certo. Não se admitia sequer um
erro de um tostão. Contas são contas.
2. O devir dos tempos trouxe também o devir das
mentalidades. A partir dos anos sessenta, as relações de trabalho/produto
passam por um novo processo, e descaracterizam-se! Os tractores, e outras
alfaias agrícolas, lenta mas progressivamente, vão substituindo o trabalho
humano, em massa. Com vantagens, mas também com desvantagens. Nas fábricas,
as linhas de montagem substituem os operários, que manuseavam as peças. E o
móvel já não tem o timbre do marceneiro. Os grandes mapas de contabilidade
dão lugar às folhas A4 padronizadas. E, em todos estes casos, o produto do
trabalho deixa de ter um protagonista. E, com raras e boas excepções, já não
é fácil identificar quem talhou e costurou aquele casaco azul escuro, que o
Senhor Ministro trazia vestido. É que, pelo recorte, não nos pareceu que
houvesse ali mão de mestre alfaiate.
3. Nos anos oitenta, para «agravar» tudo isto,
promove-se, até à exaustão, o sucesso individual. Não somos contra o sucesso
individual, pelo contrário, mas com regras. Primeiro, nas Escolas
Secundárias, valoriza-se excessivamente os cursos da moda. O ensino
industrial e comercial tinha caído em desgraça, na década de setenta.
Uniformiza-se e massifica-se o ensino. Valoriza-se uns cursos em detrimento
de outros, como se o ser humano fosse apenas uma parte e não um TODO. Surge,
assim, a Medicina como a rainha, que grande número de alunos quer servir ou
dela servir-se. Pouco depois, impõem-se a Economia e a Gestão, que passam a
ter uma forte concorrente: a Informática. E, devido à sua divulgação e
publicidade, todos os miúdos querem tirar um destes cursos, dado que os
órgãos de comunicação social, directa ou indirectamente, fazem apelos
constantes ao sucesso, mas não ao sucesso partilhado.
E relacionado com a produção, o que se mostra? Não se mostra o grupo, a fábrica
ou a escola, que criou determinado produto, ou formou determinado técnico,
mas sim o indivíduo, ou seja, o médico de sucesso, o economista e gestor de
sucesso..., enfim, aquele que pelos seus desempenhos ou características
emergiu do grupo. Esquece-se, assim, que ninguém triunfa sozinho. Por muito
bom que se possa ser, há sempre alguém que, neste ou naquele tópico, é
melhor do que nós. E o produto do trabalho, queiram ou não os
individualistas, é sempre o resultado de múltiplos contributos, de um ou
vários grupos.
Podemos dizer que o que se passa em Portugal, a partir dos anos
oitenta, pode ilustrar-se com este pequeno texto: «Quem ganhou a batalha não
foram os soldados que combateram o inimigo, mas sim o general que, na
retaguarda, ordenou aos militares que avançassem». Quem é condecorado? O
general, enquanto alguns soldados caiem nas trincheiras! Não é o que se
passa com as condecorações?
O trabalho, porque está descaracterizado, é
constantemente desvalorizado. E, como consequência, o trabalhador passa a
ser equiparado a uma máquina que, como dizia Gabriel Marcel, logo que deixe
de dar o rendimento previsto e programado é arrumado num velho armazém, para
que, talvez um dia, possa ser reciclado, se tal vier a ser considerado útil
para a tal produtividade.
4. Nos tempos hodiernos, fazem-se apelos, todos os
dias, à produtividade, mas, ao mesmo tempo, os mesmos desvalorizam o
trabalho. Aliás, com o desejo abrupto de introduzir mudanças nas relações de
produtividade, que não de trabalho!, cada vez mais se perde o sentido do
valor deste. Aquela elite, muito bem formada, pelo menos a seus olhos, saída
dos anos oitenta, ainda não entendeu, e temo que nunca venha a entender, que
o trabalho é a única fonte de riqueza. Conhece outra?
Ora, se isto é verdade, porque será que não se aposta na
valorização do trabalho, sabendo que ao valorizar-se o trabalho está a
reconhecer-se a dignidade de quem trabalha e, como consequência, a
aumentar a produtividade? Não nos esqueçamos que a máquina nunca poderá
substituir o Homem. Podem os empresários equipar as empresas com a
tecnologia mais sofisticada do mercado, que mesmo assim necessitam do
desempenho humano, nem que seja para seleccionar o botão, de um qualquer
computador, que em determinado momento é preciso premir. Aposte-se na
valorização do trabalho e logo se verificará que a produtividade aumenta.
5. Diz-se muito, hoje, que os portugueses, em
Portugal, produzem pouco. Já se vê que quem diz isto está a colocar-se de
fora. Faz um metadiscurso. Ele produz muito, os outros é que não. Nós somos
assim: «vemos a pau de fósforo no olho do outro, mas não vemos a tranca no
nosso». É humano. No entanto, a todos aqueles que pensam que a culpa é
sempre dos outros, recomendo que meditem na frase que estava escrita no
templo de Delfos e que a Pitonisa recomendou a Sócrates: «Conhece-te a ti
mesmo». (António Pinela, Reflexões, Julho de 2002).