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Poder-se-á afirmar que existe uma crise de valores no nosso tempo? Anda
o homem, dito moderno, em busca de uma nova moral? Como salvar a
dignidade do homem e a harmonia das relações humanas?
Vivemos num tempo em que se verificam desmesurados conflitos
políticos e espirituais. Esfuma-se a ideologia política, impera a lei da
‘suprema economia’, que procura, a todo o momento, reduzir a política ao
ridículo. Os senhores do dinheiro ameaçam os políticos que nos
governam, com a moda das deslocalizações para latitudes mais favoráveis
para eles, leia-se, onde a exploração de quem trabalha é ainda maior do
que nos países de origem.
Os políticos desacreditam-se uns aos outros, ofendem-se,
utilizam uma linguagem patológica, e já ninguém os respeita nem neles
acredita, dizendo-se com frequência que «quem não sabe fazer mais nada
vai para político, onde aufere salário chorudo, fazendo pequenos gestos:
como erguer-se e sentar-se durante as sessões parlamentares, aquando das
votações das Leis da República».
No campo religioso, as coisas também não vão bem.
Extremam-se posições e, nas grandes religiões, nem todos entendem da
mesma maneira o sentido da liberdade, em geral, e da liberdade
religiosa, em particular. Os fanatismos fazem o seu caminho, conduzindo
à estupidificação humana e à utilização das pessoas (depois de
estupidificadas) como armas destruidoras de si próprias e dos outros. É o que
vemos todos os dias por esse mundo sombrio.
A globalização da economia está a destruir a humanidade. A
concorrência é feroz e desleal, a tecnologia procura aliviar os factores
de produção, isto é, através das novas tecnologias procura-se produzir
mais com menos custos. Utilizando o maior número de meios técnicos e empregando menos
pessoas, criando-se assim um exército de desempregados, cada vez maior.
A miséria espreita em cada lar. Cada dia que passa vemos mais gente a
passar dificuldades.
Os estrategas da economia, primeiro, criaram-nos as
necessidades. Disseram-nos que era bom usarmos o telemóvel, cada vez
mais sofisticado, que tem tudo, mas sendo menos telefone e mais jogos,
rádio, Internet, televisão, e sei lá mais o quê! De seis em seis meses
lançam no mercado novos computadores, cada vez mais sofisticados, com
novo software, cada vez mais complexo, que já não corre nos computadores
que temos, obrigando-nos a adquirir novas máquinas. Fazem-nos crer que temos outra personalidade se
adquirirmos
aquele modelo de carro agora publicitado. Dizem-nos que
ficamos mais cultos e mais interessantes, se viajarmos pelo Brasil,
Cuba, Costa Rica, Caraíbas, Jamaica, Porto Rico, Cabo Verde, etc., mesmo
que não tenhamos dinheiro, pois os promotores das viagens fazem o favor
de nos indicar quem nos paga as ditas e a estada, que pagaremos depois
em suaves prestações, que nunca mais terminam… É uma festa! Amarga,
muito amarga, depois!
Eles controlam o nosso dinheiro. Se desconfiam que temos
algumas economias, fiquemos descansados que logo encontram a maneira de
nos “torrar” esses cêntimos, não vá a gente gastá-los em inutilidades.
Há sempre uma aplicação, muita boa, à nossa espera, dizem-nos nas
instituições bancárias. Enfim, todos nos «darão um chouriço se lhes
dermos um porco».
As famílias, fruto do novo modus vivendi, deixaram de
ser o que eram. Muitos dos casais, quando se referem aos filhos, dizem:
«os meus filhos», «os teus filhos» e «os nossos filhos». Três categorias
de filhos sob o mesmo tecto. Tudo isto, por mais que se diga o
contrário, cria muitos problemas não só para os casais, mas sobretudo
para os filhos.
O país está a ficar velho, o saldo entre óbitos e a
natividade é negativo. Fruto das exigências da modernidade – estudos,
carreira profissional –, os jovens casam cada vez mais tarde, e vão
ficando pela casa paterna, fugindo assim do “desconforto” da assunção
de uma vida própria. A casa paterna continua a ser um bom lugar para se
viver.
Todo este caldo da cultura hodierna faz com que muitas
pessoas, os menos bafejados pelo poder da sorte, se tornem amarguradas,
deprimidas, sem perspectivas de futuro, exoneradas da vida.
A dialéctica dos valores versus desvalores faz
funcionar o clássico problema dos valores de um novo dia que não
chega... Porque os poderosos são cada vez mais fortes, e os fracos são
cada vez mais débeis. E assim, por tudo o que está dito, segundo a
leitura que faço da contemporaneidade, subvertem-se os valores da vida e
da humanidade. Nesta caminhada repleta de escolhos, até onde seremos
capazes de chegar?
Como escreve Manuel Garcia Morente (filósofo espanhol): todo o valor tem o seu
contravalor. Ao valor de conveniente contrapõe-se o valor de
inconveniente (contravalor); a bom contrapõe-se mau; a
generoso contrapõe-se mesquinho; a belo
contrapõe-se feio; a sublime contrapõe-se ridículo;
a santo contrapõe-se profano. Não há um só valor que não
tenha o seu contravalor negativo ou positivo. Esta polaridade é
susceptível de criar a indiferença humana por aqueles que defendem
valores contrários. Tal indiferença, quando levada ao extremo, provoca
rupturas, acentua desigualdades, descamba em conflitos, prolonga crises. Esta oposição é um registo constante da
História, onde desfilam crises religiosas, crises económicas, crises
políticas, crises sociais, numa palavra, crise das civilizações. Estas
realidades da História levam-nos a questionar, o que significa afinal um
mundo em crise: o fim de uma civilização, a decadência dos valores
tradicionais, Estados sem rumo?
O conhecimento atento da História que nos dirá? Que os povos
estiveram sempre, mais ou menos, em crise. Mas não terá que ser assim, para
que se dêem passos noutros sentidos, se experimentem novas possibilidades
e se inventem novas formas de estar em sociedade. As crises estão
sempre mais ou menos latentes; os homens nunca estão satisfeitos com a
vigência da actualidade; mas quando tudo parece correr um pouco melhor, somos
confrontados com uma nova situação de crise. E se a crise que está
latente demora muito tempo a emergir, há que força-la a manifestar-se
vigorosamente,
para que os povos vivam em desassossego permanente (veja-se, neste
sentido, a acção negativa de algumas
agências de notação financeira, essas entidades antidemocráticas, que
têm prejudicado Estados, povos e empresas).
Nem toda a gente leva a sério ou se apercebe da crise que está instalada
nos sistema de valores actuais, em toda a sua amplitude, e do caos que,
eventualmente, se aproxima. Os valores económicos, os que imediatamente
se fazem sentir, são subvertidos pela
ganância do poder de domínio de uns tantos sobre todos, e o seu sentido sublime
do direito, que
é a repartição justa, está adulterado.
Notam alguns clérigos que a unidade religiosa e moral, que
integra a sociedade, está a desaparecer. Como pode alguém carente de
bens essenciais, de segurança no trabalho e na saúde, preocupar-se,
prioritariamente, com os bens religiosos e morais?
As novas formas de vida, produto de uma sociedade altamente
consumista, virada para o prazer fácil e imediato, torna o ser humano
cada vez mais egoísta e distante dos outros, importando apenas o
bem-estar pessoal, mesmo que o OUTRO, que é, afinal, a nossa razão de
existir, seja simplesmente aniquilado pelas agruras da vida. A atitude
fundamental da nova concepção de vida centra-se numa espécie de vida
calculada e imediatista, sendo muito diferente dos modos de vida
precedentes. Não estou a dizer que é melhor ou pior, estou apenas a
analisar o que penso ser a realidade, embora tenda a considerar que tais
formas de vida não conduzirão a bons resultados. Vão longe os tempos dos
ideais que pugnavam pela igualdade de oportunidades, alicerçada numa
vida Justa e
Humanizada. (António
Pinela, Reflexões, Julho de 2011).
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