INTRODUÇÃO
A “felicidade” é um
daqueles temas que está pouco tratado entre nós e, contudo, a todos
implica. Quem não sente o desejo de viver uma vida tranquila, liberta de
preocupações excessivas, plena de satisfação, alegre? O mais taciturno
dos homens conduzirá, por certo, a sua vida no sentido da felicidade; a
mais maquiavélica das mentes exercitará a sua acção espúria para atingir
os objectos da sua paixão; o espírito benfazejo não terá outra coisa em
mente senão a felicidade, contribuindo com a sua prática que os outros a
tenham. Numa palavra, todos queremos ser felizes. Esta é a razão
do presente trabalho: reflectir sobre a felicidade e natureza humana,
ainda que modo bastante circunscrito.
São suporte deste
escrito, os Ensaios Morais (O Epicurista, O estóico, O Platónico
e O Céptico) de Hume, embora utilize algumas referências de outras obras
do mesmo autor. Não li comentadores dos Ensaios, propus-me, para
minha própria aprendizagem, desenvolver, digamos, uma certa hermenêutica
dos textos de Hume. Assim, é minha intenção interpretar, sem adulterar,
o que Hume entende por realização de uma vida feliz, embora tenha
consciência de que não é uma tarefa fácil, tendo em conta o estilo
literário de Hume que nos deixa, por vezes, muitas dúvidas de
interpretação, mas também nos deixa o gosto e o entusiasmo pela
descoberta e novidade do tema.
A primeira parte do
trabalho procura explicar que, afinal, a felicidade humana, meta para
que todos tendemos, está intimamente relacionada com a nossa conduta, o
nosso modo de ser e estar na vida. É também tido em consideração os
reparos que Hume faz quanto à possibilidade das regras de arte
determinarem a felicidade, ideia que ele rejeita, visto que as paixões
humanas não obedecem a espartilhos e manifestam-se das mais variedades
formas. São também consideradas como contribuição para a vivência do
prazer, as situações de trabalho, de repouso, bom como de saúde. Por
último, regista-se que os objectos susceptíveis de proporcionar
satisfação ao homem devem procurar-se fora do sujeito da paixão e não,
apenas, na esfera do ‘eu’.
A segunda parte
centra-se, essencialmente, sobre a paixão e a felicidade, crítica à
generalização de princípio e influência da filosofia. No que respeita à
primeira questão, constata-se que sem uma vida de paixão não é possível
feliz, ainda que nem sempre aquela siga o caminho da virtuosidade. De
qualquer forma, só é feliz, aquele que efectivamente concretize as suas
tendências, sejam elas virtuosas ou viciosas. Quanto aos segundo tema,
Hume critica, sem contemplação, sábios e filósofos que pretenderam
generalizar as suas próprias vivências, tornando-as princípios que
outros deveriam seguir, se desejassem em felicidade. Conclui-se nesta
reflexão que só ocasionalmente os princípios – de ordem moral – serão
seguidos, mas sem que cada um se preocupe com eles. Finalmente, quanto à
influência da filosofia, penso que Hume não rejeita totalmente esta
possibilidade, embora vá dizendo que só indirectamente, não como guia,
mas como um saber que pode, em algumas circunstâncias, sugerir maneiras
de melhorar o aproveitamento dos objectos dos nossos desejos, sem
procurar substituí-los nem limitá-los.
No termo desta
introdução, direi que tenho plena consciência de que, neste trabalho,
não são tratadas exaustivamente todas as ideias contida nos Ensaios
Morais, nem é essa a minha pretensão. O texto que se segue é,
tão-somente, uma leitura possível de entre tantas, dada a riqueza
temática que Hume desenvolve e a especificidade do assunto. |