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O
filósofo, antes de o ser, é um ser humano comum, como qualquer
outro, com desejos e vontades, alegrias e tristezas, que odeia e
que ama. No entanto, enquanto filósofo e ao exercer a sua
função, ele é uma pessoa que está acima das paixões e dos
acidentes da vida. A perturbação da razão nunca produzirá um
discurso filosófico.
Haja em
vista que uma das actividades mais importantes do filósofo é
reflectir e questionar sobre a essência humana, sobre o universo
e a verdade, tudo considerado de modo holístico.
Como
pensador, professor ou escritor, analisando as principais
questões da sociedade, o filósofo só ganhará credibilidade e
será ouvido pugnando pela verdade. Se assim não fizer, ele nunca
será um filósofo à luz da razão. Será outra coisa...
O filósofo
não aceita o que lhe é presente, mesmo com aparência de verdade,
sem o respectivo questionamento, sem a eficiência da respectiva
crítica, analisando com proficiência acontecimentos, actos,
factos ou tendências no âmbito da sociedade.
A
narrativa filosófica deverá ser clara, sem ambiguidades, sem
segundas leituras (é ou não é), porque se funda na análise do
pensamento reflexivo e crítico, e no respeito evidente pela
busca da verdade.
Para
alcançar este desiderato, o filósofo não se sujeitará a
preconceitos, a modismos, a ideias feitas ou preconcebidas e,
sobretudo, não se deixará manipular pelos interesses instalados,
como interesses económicos, políticos, de oportunidade ou
outros. Se cair nesta armadilha, não agirá como filósofo.
Por tudo
isto, aquele que exerce a actividade filosófica tem que penetrar
fundo na essência da Filosofia: ouvindo o eco humano,
pressentindo o que a humanidade anseia. Como pode o filósofo
ouvir o eco humano? É simples. Por exemplo: quem não preza a
liberdade? O eco humano não emerge do grito da minha liberdade
ou da tua liberdade, individualmente; mas sim, quando em
uníssono se ouve o grito da minha liberdade, a tua liberdade e a
liberdade do outro. Que valor pode ter a defesa da liberdade
individual, particular, se ignorarmos a liberdade dos outros, ou
geral?
Aquele que
apenas pugna pela liberdade individual, situa-se no plano do
egoísmo, pois só pensa em si próprio, trata apenas de si e
dos seus interesses; ao invés, aquele que se propõe auscultar os
outros, o próximo, o bem social, situa-se no plano altruísta.
O primeiro preocupa-se apenas consigo próprio; o segundo,
sentindo a vivência de uma comunidade, na qual está integrado,
preocupa-se com o geral. O primeiro torna-se individualista,
egocêntrico; o segundo torna-se empático,
vendo no próximo um igual a si mesmo ─
princípio primordial susceptível de fundar uma sociedade mais
justa. (António A. B. Pinela, Reflexões, 02.11.2020) |