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O tema,
objecto da presente reflexão, que fora uma das preocupações de
Santo Agostinho, radica numa ética do ser que transcende a
realidade empírica. A consciencialização do homem indica que,
afinal, ele está perdido. Em tal situação, a sua vida passa a
ser orientada para uma finalidade ― a busca da felicidade ― que
exige grande coragem, determinação e desapego pelas coisas
sensíveis.
Alinham-se
algumas ideias sobre as quais, Agostinho, desenvolve o seu
pensamento
sobre a felicidade:
1. O homem é
chamado para a vida feliz e para a sabedoria como modo de ser,
embora nem sempre seja capaz de levar por diante este
chamamento, devido às suas fraquezas;
2. O Eu
tem um valor ôntico que não é inato e cuja aquisição constitui o
projecto e o drama de cada vida;
3. O homem
não é completamente humano, enquanto não obtiver, pelo estudo e
pela a acção, a sabedoria e a felicidade, que são duas
manifestações – intelectiva e volitiva – da sua participação no
ser em Deus;
4. O
filósofo não pode ascender à sua existência por dois caminhos
independentes, visto que no filósofo não se pode dar a
dicotomias entre pensamento abstracto e vida activa, na medida
em que todo o pensamento deriva de alguém, de uma pessoa, e a
pessoa é actividade consciente.
5. A ética e
a filosofia são os caminhos que conduzem o homem para a
felicidade, pela acção e pela especulação. Mas temos que
disciplinar os sentidos e até privar-se, tal como Agostinho fez,
de todo o prazer sensual, a fim de dispor-se a descobrir a Deus,
através da própria alma. Sem, contudo, deixar de exercitar o
diálogo com o mundo, a todos os níveis, para que da confrontação
nasça a consciência do eu e a constatação de que se
necessita de algo mais, visto que a irreflexão ou uma posição
acrítica perante o mundo conduz, inevitavelmente, a um
sentimento de ambiguidade, a uma situação de nequitia do
homem
perditus, como diz Santo Agostinho.
Por
conseguinte, o homem ao dar-se conta do seu eu e modus
vivendi reformulará toda a sua vida, após explicar a si
mesmo a sua vocação fundamental, e descobrir o significado da
sua vida. Proceder assim, é afastar-se de tudo o que não seja
eu, e volver-se a si, recolher-se, visto que a vida interior
é indispensável para que o homem possa abraçar a vida feliz.
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