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Saber Filosofia e filosofar
não é adoptar umas tantas ideias de autores consagrados e debitá-las
como se fossem nossas; saber Filosofia e filosofar não é aprender a
História da Filosofia e descrever, a vida inteira, as ideias dos
filósofos estudados; construir filosofia e filosofar não é apropriar-se
das ideias dos outros, sem sair delas, mas é construir, pelo saber
adquirido, as nossas próprias ideias e concepções sobre a vida e as
realidades envolventes. Por conseguinte, começar a penetrar no espírito
filosófico significa apreender profundamente os problemas do
Homem concreto, e as dificuldades efectivas que nas coisas se afiguram
fáceis,
superarando
a superficialidade do que vulgarmente denominamos por senso comum.
Nesta perspectiva, a
Filosofia deverá ser vivida, e não memorizada ou "cabulada". A vivência
da Filosofia faz-se, primordialmente, em contacto com o professor da
disciplina ou com as obras dos filósofos. Pouco vale memorizar meia
dúzia de conceitos para impressionar o nosso interlocutor – amigo,
colega ou familiar – para mostrar saber. O saber constrói-se
passo-a-passo, ouvindo, lendo, reflectindo, experimentando, debatendo,
explicando, pondo à prova.
Sem a menor dúvida que o
estudo da Filosofia, seguindo regras, capacita o estudioso a ser capaz
de se distanciar da realidade imediata e empírica que até então
contactou; de proceder a novas descobertas e a identificar novas
perspectivas no seu conhecimento, a saber: na história, na arte, nas
ciências, na literatura ou, simplesmente, nos saberes do quotidiano; de
descobrir que, afinal, as questões filosóficas não são algo que
transcende o comum dos mortais, mas que emergem da interioridade humana
e da exterioridade da sua vivência; dos desejos e vontades e das
frustrações; dos interesses e da incerteza; da capacidade de agir e das
situações-limite; das provações e da esperança. |