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O idioma português
é tão apto como os outros (o inglês, o francês ou o alemão...)
para expressar a história, as ideias ou a razão humana dos povos
que falam esta língua. E é tanto mais apto quanto mais
respeitarmos o espírito do próprio idioma e deixarmos de imitar
avassaladoramente o que é próprio e intrínseco de outros
idiomas.
É para mim,
falante do português, indiscutível, a validade e universalidade
da língua de Camões. O que se pode questionar, como alertava
Álvaro Ribeiro, é o valor do discurso (como em qualquer idioma)
e se este tem sentido. Há, por isso, que averiguar se as
palavras ou frases ditas ou escritas têm significado e sentido
ou se são desprovidas de valor ontológico, transmitindo apenas
vacuidades.
As palavras ou
frases ocas não comportam nem transmitem valores universais,
quanto muito transmitirão ilusões, principalmente para os
próprios que as pronunciam ou escrevem.
A diversidade de
sentidos que as palavras conquistam não é, de todo, negativa, na
medida em que é da atribuição de novos sentidos, ou de mais
sentido, às palavras que emergem novas ideias, princípios,
teses. É interessante pensar-se na possibilidade de, com as
mesmas palavras, dizer-se coisas diferentes, novas ou renovadas.
Quando tal acontece estamos perante o domínio da inteligência
criativa e significativa. Ou seja, deixamos que a razão (logos)
flua.
Mas não devemos
dar crédito apenas ao que é conseguido com o auxílio da razão.
Por exemplo, a crença é uma categoria intelectual que nos
permite ter certezas que não resultam de uma demonstração
racional, quer por buscar-se na autoridade e no testemunho, quer
por apoiar-se em motivos afectivos (sentimentos) e activos
(aspirações, inclinações, desejos), quer finalmente por
ultrapassar a própria razão. É este fermento interior ─ a crença
─ que nos faz ultrapassar o domínio do que é particular,
apercebido pela experiência e limitado pela ciência, e inteligir
a unidade do ser na sua universalidade, cuja intelecção nos é
proporcionada por uma inteligência superior à razão, que seria,
como escrevia Platão, as ideias superiores, como, por exemplo, a
Ideia de Bem. |