|
Quando iniciámos o estudo
da filosofia de Gabriel Marcel, ficámos com a impressão de que
ele não era muito lido entre nós, impressão que, infelizmente,
se veio a confirmar.
Sabíamos, no entanto, que Manuel Antunes escrevera, em Novembro
de 1973, logo após a morte do filósofo, que ele se revelara «um
dos mais lúcidos, mais livres e mais preocupados defensores do
humano no homem, no que vai do século». E um pouco mais a
diante, é ainda Manuel Antunes que chama a Gabriel Marcel «Um
sage que soube ver, escutar e discernir, apontando os caminhos a
trilhar e os caminhos a evitar».
Tão elogiosas referências aguçaram o nosso espírito: queríamos
ter mais informação sobre o filósofo francês. Por isso, nos
aventurámos na pesquisa das suas ideias, mais precisamente
daquelas que se prendem mais directamente com o tema da nossa
dissertação: A Fundamentação Metafísica da Esperança.
(...)
Com efeito, a nossa reflexão visa expor, tanto quanto o nosso
saber o permitir, o pensamento marceliano da esperança,
entendida esta como uma resposta credível para chamar a atenção
dos graves problemas que atormentam o homem do nosso tempo, que,
não raro, mergulha nas profundezas da descrença, que é o caminho
mais curto que conduz o homem ao desespero.
A esperança é um daqueles temas que tem sido pouco tratado entre
nós, muito menos, ainda, tem havido a preocupação de observar em
que se fundamenta. Talvez que seja considerada assunto menor da
Filosofia! No entanto, ela é permanentemente evocada por todos
nós.
Se tudo nos corre bem, diremos: «Eu tinha a esperança de que
assim seria». Se as coisas não vão pelo melhor, também não
desistimos: «Tenho esperança de que da próxima vez é que é!»
Gabriel Marcel fala-nos destas questões. Procura esclarecer o
sentido da esperança, em que se fundamenta e qual a sua
eficácia. Quisemos, por isso, compreender a importância das suas
preocupações neste plano da vida humana.
Gabriel Marcel faz parte de uma geração de filósofos, cuja
especulação filosófica tem como ponto de partida a sua
própria experiência pessoal. Ele recusa conceber a vida
enquadrada num sistema, porque, segundo ele, não existem
sistemas de vida, mas unicamente sistemas de pensamento. Com
efeito, não é sensato pretender enquadrar o ser humano, com
todas as suas fraquezas, vícios e virtudes, vontades e
particularidades, em sistemas pré-determinados.
Gabriel Marcel está plenamente convencido de que só no quadro de
uma filosofia concreta é possível pensar e compreender o homem,
mas o homem das vivências reais, aquelas que cada um vive.
Anti-intelectualista convicto, interessa-lhe simplesmente o ser
concreto e individual. O filósofo é, aliás, hostil à
racionalização e à conceptualização da vida, uma vez que estas
«faculdades» descambam facilmente para a generalização e,
consequentemente, para o plano do abstracto. E o filósofo,
escreve ele, só pode contribuir para salvar o homem de si mesmo,
mostrando sem piedade nem descanso as devastações causadas pelo
espírito de abstracção.
(...)
A metodologia marceliana consiste, por conseguinte, em irmos ao
encontro «do nosso próprio eu» e apreender o que há de mais
original e pessoal em nós, no sentido de compreendermos o ser
que somos enquanto estamos em situação, enquanto vivemos cada
situação. É este percurso reflexivo que permite descobrir o
sentido e o valor filosófico da vida.
(...)
A experiência pessoal e concreta, aquela que mais preocupações
nos traz, podemos, assim, traduzi-la pelas situações de
cativeiro por que passa o ser humano, como são as doenças, a
perda de um familiar, da liberdade ou de outras contrariedades
da vida. Por tudo isto, o homem está sujeito a desesperar.
No entanto, e apesar de todos os obstáculos, o homem tem uma
enorme capacidade de renovação da esperança. Com efeito, esta é,
ao mesmo tempo, uma atitude espiritual perante o conhecimento
das situações dramáticas e uma resposta a essas mesmas
situações. É uma atitude espiritual, na medida em que o homem de
esperança vive em estado de disponibilidade e de crença na
possibilidade da superação daquelas situações. É uma resposta,
porque não se deixa inebriar pelo quadro desesperante em que
está envolvido.
É esta crença na esperança que faz com que o homem seja capaz de
restaurar a integridade que, não raro, julga perdida.
(...)
Em conformidade com o que tem sido dito, acresce dizer que o
único caminho para superar o desespero é, de facto, a união
convivencial e o amor. Seguro desta realidade, Gabriel Marcel
aconselha a multiplicação das relações humanas e a lutar, com
todas as forças, contra o anonimato descaracterizador da pessoa
humana, que vigora no tempo actual.
Enquanto filósofo da existência, o nosso autor não privilegia a
afirmação do eu. Reflectindo sobre si próprio, conclui que a
investigação filosófica se situa no ponto de junção em que o eu
encontra o outro. Era sua convicção de que o eu só existe, na
medida em que existe para os outros, porque o ser é sempre
coesse – participação e comunicação.
Esta coexistência possibilita a abertura do eu aos outros e
significa ascender até à invocação, situação que pressupõe o
sentimento da vivência em comunidade, em que a comunicação com o
outro é realmente uma comunicação com o tu.
(...)
Filósofo itinerante, Gabriel Marcel é um pensador para quem, o
facto de «estar-a-caminho», é o alvo e essência de todo o
pensamento filosófico. E porque a sua reflexão é uma filosofia
da presença, da fé e da participação, o filósofo analisa
profundamente o sentido da existência humana, na sua experiência
concreta, que faz da sua reflexão uma filosofia pessoal, aberta
para o mundo e para Deus, e tem na esperança metafísica a sua
última e mais alta afirmação.
O pensamento de Gabriel Marcel, na época em que escreveu alguns
dos seus textos mais representativos, já traduzia a noite
sombria que invadia as consciências mais atentas. Com efeito, o
filósofo dá-se conta de que o homem contemporâneo está a
deixar-se encaminhar para as fronteiras do desespero. Porém,
afirma que mesmo nas horas mais dramáticas da vida humana
cintilam chamas de esperança capazes de iluminar e revitalizar
os corações. (...). |