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A Fundamentação Metafísica da Esperança em Gabriel Marcel

 

ISBN: 978-989-97030-1-8


© António A. B. Pinela, 2010

Edição: Do autor

Formato: eBook

Páginas: 317

Publicação e comercialização: www.eurosophia.ocm

Preço: € 14,50

 
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Sobre o autor
 

António A. B. Pinela fez a sua licenciatura e mestrado em Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. E deste então, a sua actividade profissional desenvolveu-se no ensino: Leccionou em várias escolas secundárias e, nos últimos anos da sua carreira, foi orientador de estágio pedagógico, no ensino secundário, primeiro em colaboração com a Universidade Católica, em Lisboa, depois, com a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Participou em diversas actividades sobre educação. Após a aposentação dedica-se à escrita.

 

Dissertação de Mestrado em Filosofia, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Lisboa, 1996.

 
 

Resumo da tese publicado na Revista FHILOSOPHICA, N.º 10 (1997), Edições Colibri, Departamento de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, pp. 162-168.

 

Quando iniciámos o estudo da filosofia de Gabriel Marcel, ficámos com a impressão de que ele não era muito lido entre nós, impressão que, infelizmente, se veio a confirmar.

Sabíamos, no entanto, que Manuel Antunes escrevera, em Novembro de 1973, logo após a morte do filósofo, que ele se revelara «um dos mais lúcidos, mais livres e mais preocupados defensores do humano no homem, no que vai do século». E um pouco mais a diante, é ainda Manuel Antunes que chama a Gabriel Marcel «Um sage que soube ver, escutar e discernir, apontando os caminhos a trilhar e os caminhos a evitar».

Tão elogiosas referências aguçaram o nosso espírito: queríamos ter mais informação sobre o filósofo francês. Por isso, nos aventurámos na pesquisa das suas ideias, mais precisamente daquelas que se prendem mais directamente com o tema da nossa dissertação: A Fundamentação Metafísica da Esperança.

(...)

Com efeito, a nossa reflexão visa expor, tanto quanto o nosso saber o permitir, o pensamento marceliano da esperança, entendida esta como uma resposta credível para chamar a atenção dos graves problemas que atormentam o homem do nosso tempo, que, não raro, mergulha nas profundezas da descrença, que é o caminho mais curto que conduz o homem ao desespero.

A esperança é um daqueles temas que tem sido pouco tratado entre nós, muito menos, ainda, tem havido a preocupação de observar em que se fundamenta. Talvez que seja considerada assunto menor da Filosofia! No entanto, ela é permanentemente evocada por todos nós.

Se tudo nos corre bem, diremos: «Eu tinha a esperança de que assim seria». Se as coisas não vão pelo melhor, também não desistimos: «Tenho esperança de que da próxima vez é que é!»

Gabriel Marcel fala-nos destas questões. Procura esclarecer o sentido da esperança, em que se fundamenta e qual a sua eficácia. Quisemos, por isso, compreender a importância das suas preocupações neste plano da vida humana.

Gabriel Marcel faz parte de uma geração de filósofos, cuja especulação filosófica tem como ponto de partida a sua própria experiência pessoal. Ele recusa conceber a vida enquadrada num sistema, porque, segundo ele, não existem sistemas de vida, mas unicamente sistemas de pensamento. Com efeito, não é sensato pretender enquadrar o ser humano, com todas as suas fraquezas, vícios e virtudes, vontades e particularidades, em sistemas pré-determinados.

Gabriel Marcel está plenamente convencido de que só no quadro de uma filosofia concreta é possível pensar e compreender o homem, mas o homem das vivências reais, aquelas que cada um vive. Anti-intelectualista convicto, interessa-lhe simplesmente o ser concreto e individual. O filósofo é, aliás, hostil à racionalização e à conceptualização da vida, uma vez que estas «faculdades» descambam facilmente para a generalização e, consequentemente, para o plano do abstracto. E o filósofo, escreve ele, só pode contribuir para salvar o homem de si mesmo, mostrando sem piedade nem descanso as devastações causadas pelo espírito de abstracção.

(...)

A metodologia marceliana consiste, por conseguinte, em irmos ao encontro «do nosso próprio eu» e apreender o que há de mais original e pessoal em nós, no sentido de compreendermos o ser que somos enquanto estamos em situação, enquanto vivemos cada situação. É este percurso reflexivo que permite descobrir o sentido e o valor filosófico da vida.

(...)

A experiência pessoal e concreta, aquela que mais preocupações nos traz, podemos, assim, traduzi-la pelas situações de cativeiro por que passa o ser humano, como são as doenças, a perda de um familiar, da liberdade ou de outras contrariedades da vida. Por tudo isto, o homem está sujeito a desesperar.

No entanto, e apesar de todos os obstáculos, o homem tem uma enorme capacidade de renovação da esperança. Com efeito, esta é, ao mesmo tempo, uma atitude espiritual perante o conhecimento das situações dramáticas e uma resposta a essas mesmas situações. É uma atitude espiritual, na medida em que o homem de esperança vive em estado de disponibilidade e de crença na possibilidade da superação daquelas situações. É uma resposta, porque não se deixa inebriar pelo quadro desesperante em que está envolvido.

É esta crença na esperança que faz com que o homem seja capaz de restaurar a integridade que, não raro, julga perdida.

(...)

Em conformidade com o que tem sido dito, acresce dizer que o único caminho para superar o desespero é, de facto, a união convivencial e o amor. Seguro desta realidade, Gabriel Marcel aconselha a multiplicação das relações humanas e a lutar, com todas as forças, contra o anonimato descaracterizador da pessoa humana, que vigora no tempo actual.

Enquanto filósofo da existência, o nosso autor não privilegia a afirmação do eu. Reflectindo sobre si próprio, conclui que a investigação filosófica se situa no ponto de junção em que o eu encontra o outro. Era sua convicção de que o eu só existe, na medida em que existe para os outros, porque o ser é sempre coesse – participação e comunicação.

Esta coexistência possibilita a abertura do eu aos outros e significa ascender até à invocação, situação que pressupõe o sentimento da vivência em comunidade, em que a comunicação com o outro é realmente uma comunicação com o tu.

(...)

Filósofo itinerante, Gabriel Marcel é um pensador para quem, o facto de «estar-a-caminho», é o alvo e essência de todo o pensamento filosófico. E porque a sua reflexão é uma filosofia da presença, da fé e da participação, o filósofo analisa profundamente o sentido da existência humana, na sua experiência concreta, que faz da sua reflexão uma filosofia pessoal, aberta para o mundo e para Deus, e tem na esperança metafísica a sua última e mais alta afirmação.

O pensamento de Gabriel Marcel, na época em que escreveu alguns dos seus textos mais representativos, já traduzia a noite sombria que invadia as consciências mais atentas. Com efeito, o filósofo dá-se conta de que o homem contemporâneo está a deixar-se encaminhar para as fronteiras do desespero. Porém, afirma que mesmo nas horas mais dramáticas da vida humana cintilam chamas de esperança capazes de iluminar e revitalizar os corações. (...).

 
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