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INTRODUÇÃO
Procurar saber até que ponto a língua portuguesa é um bom veículo
de expressão da Filosofia, problema levantado por Álvaro Ribeiro,
era, inicialmente, o âmbito do nosso interesse pelo estudo da obra
A Arte de Filosofar; no entanto, as leituras e reflexões
ulteriores, efectuadas no Seminário «Cultura, Literatura e
Filosofia: Leitura de Textos Portugueses» inflectiram o nosso
interesse e estendemos, por isso, o estudo à I Parte da obra, «A
Razão Universal», tema que colhemos de Ribeiro para título do
presente estudo.
Temos consciência de que a obra que nos propomos analisar trata de
questões de difícil abordagem e, como se tal não bastasse, o próprio
autor não ajuda muito a compreender alguns temas que aborda, dado
que, com frequência, inicia reflexões que não conclui ou esclarece,
mas que apenas refere de passagem, o que dificulta, por vezes, uma
clara apreensão das intenções do filósofo. De qualquer modo,
achámos interessante analisar as temáticas que Ribeiro traz à
discussão e, tanto quanto nos for possível, esclarecê-las e
atribuir-lhe o devido valor, segundo a nossa leitura.
Foi, de facto, «A aptidão da língua portuguesa para a Filosofia»
(rubrica I) que nos fez interessar pelo temário proposto por Álvaro
Ribeiro. A leitura da obra fez-nos pensar que temos o hábito de
desvalorizar tudo (ou quase) quanto é português, até a própria
língua! Diz-se que não se houve música portuguesa, porque o
dizer ou o cantar não é tão sonoro ou melódico como o
cantar e dizer em língua inglesa, por exemplo; não se vê ou vêem-se
pouco os filmes portugueses, porque os filmes americanos ou
ingleses têm qualidade superior; não se lê ou lêem-se poucos
ensaios e outras obras científicas ou filosóficas de autores
portugueses, porque os nossos investigadores ainda não atingiram os
níveis alcançados lá fora; enfim, mais concretamente, no que
concerne à Filosofia, não temos um Kant ou um Hegel, um Descartes ou
um Sartre, um Hume ou um Russell que nos sirva de bilhete-postal,
para que se faça luz sobre as reais capacidades do pensar em
português! E, todavia, como pensa Ribeiro, a nossa língua não é
menos apta que as outras línguas românicas para a tradução e para
expressar a razão humana, visto que a razão é universal e a todos
cumpre por igual o privilégio da sua comunicação.
Tendo em conta «A complexidade da linguagem e o rigor da
comunicação» (rubrica II), e porque o tema anterior o sugere,
abordaremos a importância do signo linguístico, como elemento
fundamental da comunicação e realçaremos o valor ontológico do
discurso, sem esquecer que falar, implica o concurso de "todo o
corpo" e não apenas de alguns órgãos próprios, como querem os
positivistas
Na sequência do presente estudo, cabe analisar o valor e o sentido
lógico das palavras, já que os positivistas tendem a substituí-las
por símbolos, devido a que, na sua opinião, estes são mais estáveis
e rigorosos que as próprias palavras. Pois, para eles, como se
escreve em III.1, «Só o conhecimento dos factos é fecundo» e é só
por meio da linguagem simbólica que tal conhecimento é possível.
Relega-se, assim, para um plano secundário a linguagem natural. Daí
que o estudo de «A significação das palavras, as novas teses e os
princípios lógicos» (rubrica III) tenha sentido, a fim de se
verificar até que ponto a redução das palavras a símbolos, mesmo
que limitada às ciências experimentais, permite o desenvolvimento
intelectual ou a possibilidade da inovação. Ora, se as palavras são,
por assim dizer, entidades "vivas", as suas significações, e não a
simbologia das ciências, são necessárias à expressão da razão e à
possibilidade de elaboração de novas teses.
A «Razão e crença, pensamento e realidade» (rubrica IV), último tema
que se reflecte, aborda a universalidade da razão, visto que sem ela
não é possível prosseguir o caminho que se situa entre a ciência e a
ignorância. Enfim, a reflexão em torno desta rubrica encaminha-nos
para a compreensão das verdades lógica (verdade dos
conhecimentos) e ontológica (verdade das coisas) inseridas
no contexto da Natureza que apenas conhecemos imperfeitamente.
Não poderíamos deixar de reflectir sobre o sobrenatural que
não podemos conhecer empiricamente, mas que nos dá a garantia de
acesso não só a conhecimentos particulares, como também a
conhecimentos superiores ou universais, sem esquecermos que, como,
pensa Ribeiro, ao conhecimento de Deus só chegaremos por meio de
inferências.
A finalizar esta introdução, devemos esclarecer que, para além do
estudo da obra de Álvaro Ribeiro, A Arte de Filosofar,
serviu-nos de apoio e consulta os apontamentos e textos de
apoio fornecidos no Seminário supra citado, bem como as
obras indicadas em bibliografia. |