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1.
Que é o mito?
Os povos mais antigos procuravam responder às suas interrogações com
histórias longínquas, sempre muito misteriosas, sobre a origem das
coisas, o destino do homem, as causas do bem e do mal, sobre as
divindades, etc. Estas histórias, designadas por “mitos”, foram
consideradas, durante muito tempo, como lendas que eram transmitidas,
quase sempre por via oral, pelos antepassados. Consideradas por alguns
como simples ficção literária, aquelas narrativas revelam já uma
preocupação do homem pré-filosófico em saber qual a sua posição no seio
do universo, constituindo uma reflexão sobre toda a praxis humana.
O
pensamento mítico é muito antigo e não pode, com rigor, ser datada a sua
origem. Sabe-se, contudo, que começa a perder a sua influência por volta
do século VI a.C. Mas o mito faz parte integrante da natureza humana e
existe em todas as culturas. Todos os povos criaram os seus mitos da
criação do universo e do próprio homem, e até mitos mais particulares
que se reportam a coisas ou a acontecimentos menores. Sendo uma presença
constante na mentalidade dos povos, o mito ilumina o seu mundo com
espíritos ou deuses benfazejos e malfazejos, e com criações fabulosas,
fruto da sua imaginação efabuladora.
Quando no homem desperta a consciência humana e verifica que no seu
habitat coabitam outras espécies diferentes da sua, que lhe causam
problemas, e que outros grupos humanos são hostis entre si; quando se
sente aterrorizado pelas forças da natureza como o mar tempestuoso;
quando as tempestades lhes destroem os seus bens, começa a intuir que
existem causas que obedecem a leis misteriosas que desconhece; e tendo
dificuldade em determinar que causas são essas, o homem passa a
atribuí-las ao destino, à divindade e aos deuses da terra e dos céus,
porque são estas forças misteriosas que explicam como tudo acontece.
Inicia-se, então, um longo processo de organização dos espaços,
nascendo, em simultâneo, o desejo de dominação entre grupos para afastar
o medo e a insegurança face a ataques exteriores de animais ou pessoas.
Perante esta realidade, os povos encontram nos mitos a força anímica
bastante para os unir no seio das suas comunidades.
Sendo, essencialmente, populares e anónimos, estes relatos mitológicos
põem em cena seres que encarnam, sob uma forma simbólica, forças da
natureza ou aspectos da condição humana. Por isso, uma vez dito o mito,
este passa a ser considerado verdade absoluta e indiscutível: «É
assim, porque é assim». E, desta forma, os transmissores do mito
sustentam a validade das suas histórias sagradas e das suas tradições
religiosas. Porquanto, o mito proclamando a aparição de uma nova
situação cósmica ou de um acontecimento primordial é sempre uma criação
sagrada. Mas o mito não é uma explicação que satisfaça a curiosidade
científica, é sim um relato que faz reviver uma realidade original,
respondendo a uma necessidade religiosa e a aspirações morais e práticas
que todos comungam.
Sem que se possa ter a certeza, o mito terá surgido quando a religião
procurou assenhorear-se de tudo o que a fantasia humana divinizou, e o
homem nele encontrou o modo apropriado para explicar o Mundo e os seus
fenómenos naturais. Para formar um mito, bastaria o aparecimento de um
fenómeno natural estranho, assombroso e insólito. E, quanto menos fosse
compreensível a sua estrutura, melhor para excitar a imaginação criativa
dos homens, provocando, ao mesmo tempo, o medo, a insegurança ou a sua
curiosidade.
Daí que as primeiras “interrogações” humanas tenham recaído, não
propriamente sobre o mundo restrito do homem, mas sobre realidades mais
complexas para pensamento humano: a origem do mundo e das suas
partes, os fenómenos da natureza – realidades que lhe são exteriores –
foram, muito provavelmente, os primeiros motivos a que os míticos
prestaram a sua atenção. O Mito constitui, portanto, uma primeira
forma de explicação do universo e de tudo que nele ocorre. Mas esta
primeira “explicação” e ideias desenvolvidas são ainda muito impregnadas
da ordem sentimental; no entanto, esta forma de pensar é já o
princípio que conduz o pensamento humano a novos modos de
apreensão e explicação da realidade cósmica.
Sendo, embora, uma explicação “irracional”, já se faz um esforço para
estabelecer alguma correlação entre o efeito e a sua causa, na tentativa
de descobrir nexos de causalidade entre as coisas, isto é, entre as
coisas e a sua origem. Enfim, o mito é uma história tradicional que
corporiza as crenças de um povo no que concerne à criação, aos deuses,
ao universo, à vida e à morte.
Talvez se possa dizer que os mitos foram as primeiras tentativas de
formulação de uma “filosofia” e de uma “ciência”. Todavia, neste labor
mítico, a reflexão pessoal não é ainda perceptível. O pensamento dos
mais esclarecidos vai ainda limitar-se, por muito tempo, a interpretar e
a comentar o mito, única via por que se desenvolve a sua vida espiritual .»António
A. B. Pinela, Para que serve a Filosofia, 1ª ed. (eBook), 2010,
pp. 24-28, in www.eurosophia.com
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